terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Quintal

No lugar mais fétido da casa, onde os pombos defecam, é lá que fico. De uma moita de capim amarelecido, que cobre quase todo o acesso à porta da frente, saem duas baratas. Jogo álcool nelas. Que não entrem. Ouço o barulho das goiabas que caem apodrecidas de um pé infestado de bichos. Num canto, dois cachorros dormem sobre um cobertor sujo. Um pássaro vem todos os dias, no mesmo horário, e canta. O cheiro do álcool se mistura ao das frutas podres. O vento leve das tardes de verão espalha o odor e o asco. Merda de passarinho.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Enquanto isso, na sala de aula

Do lado de fora da universidade, operários almoçam numa mesa de madeira, mesmo material do barracão onde dormem, penso. Um deles passa um pedaço de carne para o prato de outro. São só esses dois, por enquanto. Logo chega mais um, que entra no barracão depois de jogar fora uma bituca de cigarro. Outros vêm-se juntar à mesa, numa movimentação de marmitas, talheres, pratos, sorrisos, copos. Vejo-os pela janela da sala onde participo de um curso de literatura. Imagino que contem piadas, enquanto observo a troca de comida entre eles. Estou num dos prédios mais novos da universidade, construído para a faculdade de computação, a construção ainda não está terminada. Ao lado as obras continuam. Um dos participantes do curso faz uma pergunta importante sobre representação da realidade na literatura. Tenho de prestar atenção. Dou uma espiada rápida, os operários estão às gargalhadas, a piada deve ser boa. Não dá para ouvi-los, o ar-condicionado está ligado, as janelas, fechadas.

Nasce Cátia K.

Diante do verde deslumbrante das águas do litoral natalense, Cátia K. sentia o vento nos cabelos e observava o namorado, Fred M. Neto, um jovem engenheiro eletrônico natural de São Paulo. Enquanto contemplava os músculos do rapaz de 1,90m de altura, com a pele escura brilhando de suor sob o sol equatoriano da capital potiguar, a bela morena lembrava-se de sua própria história.

Cátia K. nasceu numa família de músicos. O pai tocou violão com João Donato em 1964, no Beco das Garrafas, e deixou a música para entrar no mercado financeiro. Tornou-se milionário. Nos fins de semana, em sua casa de campo, para a família e os amigos mais chegados, sempre mostrava a primeira versão de “O pato”, de João Gilberto. Repetia, exultante, ao fim de cada execução: "Viram? É bem diferente daquela que todos conhecem!" Nessa hora, a mãe servia mais bebida.

A mulher também teve seu passado musical. Participou de um momento importante da MPB. Enquanto Elis Regina gritava “Arrastão”, a mãe de Cátia K. e mais duas backing vocals, ou cantoras de apoio – como gostariam Tinhorão e Aldo Rebelo –, seguravam o resto da canção. Depois disso, também participou de discos de Emilinha Borba, Doris Monteiro e, vejam só, Chico Buarque – ouvidos atentos podem perceber o seu canto soprano soterrado na mixagem de "A banda".

O encontro dos dois aconteceu numa noitada no fim de 1967. Nunca deram detalhes sobre aquela noite. Cátia descobriu que foi uma reunião liberal, bem à moda da época. Ela sempre pensou que festinhas em que ninguém é de ninguém nunca renderam lares burgueses, mas sua família era prova contrária. Nasceu muitos anos depois da idílica orgia protagonizada pelos progenitores.

Por causa dos pais, sabia tudo sobre João Gilberto, inclusive suas músicas. Percebia a diferença entre lá sétima maior sustenido e sol em ré menor na quarta-feira de cinzas. Também entendia porque Nara resolvera subir o morro e resgatar velhos sambistas negros. Mais de uma vez ouviu em casa: "O motivo não era musical."

Não foi dos pais, porém, que lhe vieram as grandes influências. A governanta Madalena del Puentes Saracuja, nascida na Argentina e criada em Monte Carlo, com passagens por Singapura, Pedro Juan Caballero e Nova Andradina, marcou decisivamente seu contato com as melodias, ritmos e harmonias. Profissional de respeito, já era governanta no período em que Cátia nasceu. Detalhista, de relacionamento seco e preciso com outros empregados, mostrou à bela menina obras de Chopin, Bartok, Wagner, Puccini, Copeland e Damião Experiença. As sessões musicais eram secretas. Ninguém a elas tinha acesso, somente as duas desfrutavam do prazer sonoro, mesclado aos toques que prolongavam fisicamente o deleite musical que a experiente senhora apresentava a Cátia K.

A governanta também tentara a carreira musical. Não gostava de falar de seu passado. A menina descobrira que suas investidas foram no canto erudito, e Maria Callas era culpada por seu insucesso. Mas não foi de sua boca que ouvira isso. Os detalhes juntaram-se na perspicácia de Cátia, atenta às pistas que a empregada deixara ao longo dos anos. Callas nunca entrava numa sessão de audição de divas da ópera que Madalena organizava. Na única vez que se ouviu seu canto no quarto, a argentina tirou o disco da vitrola e o jogou contra a parede, espalhando cacos de vinil pelo aposento. “Outro disco na capa errada”, explicou.

Enlevada pelas lembranças, Cátia K. voltou-se à paisagem paradisíaca que a cercava, lembrando-se de que um dos motivos que fizeram seu pai contratar Madalena fora o zelo com os discos, primeiramente os de vinil, depois, os CDs, que não podiam estar fora de capa, muito menos com poeira ou marcas de dedos, o que o deixava possesso. Não viveu para o MP10.

Cátia K. virou-se para o namorado: “Amor, vamos para o hotel? Quero uma ducha fria, uma salada de rúcula e uma massagem completa. Precisamos também terminar os cálculos para o próximo trabalho." Fred M. sorriu.

Composição, criação e argumento: Oscar Rocha
Colaboração: Fred Andrade
Pai de Cátia K. inspirado em Jefferson Contar
Adaptação e texto: Ana Silva

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Merda


A porra da porta do carro encrencou de novo, tenho de mandar consertar essa bosta. Vamos, vamos, destrave, tenho de sair. Essa rua está horrível, meia hora desviando de buracos, chega na esquina com a avenida para tudo. Anda. Ô, lerdeza. Agora que a coisa começa a se mover, fecha o sinal. Anda. Dá para descer mais rápido, aleluia, vamos. Ô, ciclista filho da puta! Como é que entra assim, na frente da gente? Atraso, atraso. Tenho de chegar ao escritório rápido. Só resolver problema. Consegui um otário pra comprar o apartamento, aquela vaca da proprietária resolveu aumentar o preço. Caralho. Será que ela não vê que o bairro é podre, o apê é velho? Burra velha. Cacete! Corno, como é que me fecha desse jeito? E essa lata velha aqui tentando podar pela direita? Não deixo. Vamos ver, feladaputa. Tomou? Vou pegar a outra rua, deve estar menos movimentada. Também, com tanto buraco. E essa merda de conserto da pracinha, orra, essa gente não tem o que fazer? Trancam metade da via pra arrumar uma porcaria de uma praça que não serve pra nada. Não vou chegar nunca. Velho da porra! Sai da frente! O cara a 20 por hora. Merda. Não dá nem pra desviar, o carro do outro lado também tá a vinte. Tinha de ser mulher. Putz, o radar. 50 por hora, nesta rua? Quem é que põe essa velocidade? Não veem, não veem? Viado! Me deu uma fechada! Filho da puta, ainda com adesivo de “na mão de deus”. Na mão de deus o cacete! Corno, tirou uma fina! Juro, se eu tivesse um revólver! E agora essa lei de parar em faixa. Cara, como tem pedestre sem noção, bando de abusado. Anda, porra, anda. Não chego nunca.

- Bom dia, D. Judite, como vai?
- Na paz de deus, meu filho.

- Por favor, vamos entrar. Na paz de deus, senhora.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Meu coração não se cansa de ter esperança

Vejam que lindo Valiosa escreveu:

Essa foto tem cheiro de pão fresco na manhã. Lembrei-me do padeiro que nos fornecia pães em curitiba,nos anos sessenta. Ele vinha de Kombi e deixava os pães no saco de algodão branco bordado que era deixado na porta da frente na casa. No dia em que o padeiro vinha cobrar a caderneta, durante a tarde, nós crianças da vila, ficávamos na espreita, era só ele bobear que nós faturávamos um ou outro doce, tipo sonho, de dentro da Kombi largada aberta. Hoje penso que se eu tivesse a consciência de que o padeiro tinha tantas bonecas para sustentar talvez eu não afanasse sonhos dele.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Assassina serial

Cinza opaco, o furgão estacionou quase sem ser percebido a cerca de quinhentos metros do local da festa. Cátia K. desceu do veículo e deu alguns passos vagarosos, observando o ambiente. Um pouco longe, analisou, mas assim é melhor, mais discreto, decidiu, enquanto voltava para o automóvel, os longos cabelos negros presos no alto da cabeça. Depois de alguns minutos, saiu do carro uma moça com peruca loira, camisete branca e minissaia jeans.

Balançando os cabelos esticados com escova progressiva, num tom de loiro que contrastava com sua bela pele morena, Cátia K. dirigiu-se à festa. Ao som do axé em altíssimo volume apesar do horário – já passava das duas da manhã –, ela se misturou à multidão que dançava freneticamente, com os braços estendidos, e repetia o refrão da música. No palco, armado sob uma enorme tenda branca, o cantor se esmerava nos gritos, acompanhado de moças vestidas sumariamente, que se movimentavam numa coreografia copiada pelo público.

Misturada à multidão, Cátia K., rebolando, dirigiu-se aos poucos à lateral do palco. Sem ser percebida, logo estava diante da potente aparelhagem de som que sustentava o espetáculo, um verdadeiro aparato. Enquanto observava o local, ouviu o grito do cantor: “Tira o pé do chããããão!”, seguido de um entusiasmado urro coletivo. Sua mão coçou nervosamente o cabo da arma, uma Magnum 45 com silenciador, escondida sob o cós da minissaia, à guisa de coldre. Calma, pensou, você é uma profissional. Há trabalho a fazer.

Recuperada a serenidade, continuou a análise do local. Caminhou por trás do palco observando a quantidade de pessoas que circulavam por ali. Poucas, percebeu. É o momento. Retornou à área do som e permaneceu alguns segundos olhando as enormes caixas. Num relance, Cátia K. sacou a arma e disparou contra a base do amplificador. O ruído do disparo, amortecido pelo silenciador da arma, foi tão insignificante quanto a faísca resultante da detonação. Boas as aulas de eletrônica, celebrou.

Uníssono “oh” de decepção foi a reação da plateia, surpresa pelo desaparecimento da música, muitos rapazes e moças ainda com os glúteos para cima, no auge de um movimento da agitada dança. No palco, cantor e dançarinas, atônitos, não sabiam o que fazer. Em volta, técnicos e organizadores corriam, dirigindo-se aos fundos do palco, confusos, em barafunda.

Rapidamente, Cátia K. escondeu seu revólver no cós da roupa, olhou de um lado e de outro e se voltou para a frente do palco, junto à multidão. Logo se perdeu no meio das quinhentas e trinta e nove meninas com camisetes brancas, minissaia jeans, cabelos esticados e tingidos de loiro. Caminhando devagar, fingia estar tão perplexa quanto os outros participantes.

De repente, ouviu-se um chiado eletrônico. Uma voz metálica, parecendo distante, anunciou o uso de som auxiliar, que dava possibilidade de funcionamento do microfone, mas, infelizmente, era impotente para a continuidade do espetáculo, portanto, definitivamente cancelado.

Em meio à decepção generalizada, Cátia K. começou a sair de entre o público, que iniciava um esboço de revolta, com gritos esparsos de “queremos show”. Devagar, ela se foi retirando, olhando ao redor, disfarçadamente, até chegar ao furgão. Lá, vidros fechados, desfazendo-se da incômoda peruca, deu a partida no veículo. Um axé a menos, sorriu, satisfeita.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Pesadelos


Da série Confissões

Normalmente, não sonho. Dizem que se sonha todos os dias, mas nem sempre restam lembranças. Não sei. Acho que sonho pouco. Dos sonhos bonitos, lembro alguns. Há os emocionantes, também. O que não esqueço são os pesadelos. Por que é que a gente tem de lembrar mais o que é ruim?

Com o trânsito, por exemplo, tenho pesadelos constantes. Vejo-me dirigindo, agarrada ao volante, perseguida por outros carros em alta velocidade. Só sei que tenho de pisar fundo e fugir. Parece aquele jogo de videogame que simula uma pista de corrida. Tenho horror àquilo, não jogo nem sob tortura. Acordo assustada e, de vez em quando, tenho a mesma sensação quando estou na rua de verdade.

Outro pesadelo é acordar no meio da noite achando que estou deitada em água. Desperto apalpando o colchão. Comecei a ter esse sonho desde que me mudei para Natal. Talvez porque nunca tenha visto tanta umidade na minha vida. Sou bicho de cerrado, terra seca. O inverno aqui é de chuva por três ou quatro meses. Então, às vezes tenho esse sonho: estou de novo no porão da Polícia Federal, onde fiquei presa por 24 horas, numa cela com uma cama de alvenaria, contígua à parede e pintada com tinta a óleo.

Sem cobertura, colchonete ou manta, era fria como o diabo. Com o chão inundado, o que esfriava ainda mais o ambiente, passei a noite sobre a tal cama de tijolo, acocorada, com medo de pôr os pés no chão por conta dos insetos que infestavam o local. Pois eu acordo com a impressão de que estou naquela celinha alagada. Tenho de tatear ao redor até perceber que estou na minha cama, seca e limpa.

Mas o pior de todos os sonhos é com insetos. Especificamente baratas. Tenho fobia a esse bicho. Aliás, horror a qualquer bicho, mas essa coisa pré-histórica é de arrepiar, de se jogar pela janela. Por conta desse maldito animal, nem consegui ler direito A Metamorfose, do Kafka. Eu começava a leitura e tinha engulhos, foi uma dificuldade. Nos meus pesadelos, vou à cozinha ou a outro cômodo da casa e encontro uma barata imensa. E ela, parada, começa a crescer até ficar do tamanho de um urso. É de acordar gritando.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Questão estética

(curta)

Estávamos parados no ponto de ônibus. Sem assunto, calados, os dois absortos, talvez pensando no filme que acabáramos de ver. Olhávamos a avenida, quase vazia, naquele fim de tarde de domingo. Ao longe, do outro lado da via, uma enorme motocicleta, triciclo, reluzente, passeava devagar. O piloto, um homem grande, gordo, quase deitado sobre o banco, com uma longa barba grisalha. Um quepe preto cobria-lhe a cabeça; colete e calças de couro completavam a indumentária, roupa e veículo cobertos de penduricalhos e adereços que brilhavam mesmo sob o sol fraco. Oscar respirou fundo e, sem voltar a cabeça para mim, olhos fitando o horizonte, começou a falar num tom baixo e monocórdio.

– Ana, você gosta de mim?

– Gosto.

– Você gosta muito? Me ama, mesmo?

– Sim. Eu gosto muito de você.

– Então, me prometa. Se um dia você me vir vestido desse jeito, você me mata?

– Mato.

m

quinta-feira, 19 de março de 2009

Por uns cobres a mais

Fumava feito uma chaminé, e os familiares perturbavam-na por conta do hábito. Diziam-lhe que ainda iria morrer por causa do cigarro; era escrava do vício. Não ligava a mínima.

Tinha cinzeiros espalhados pela casa toda. Desses de vidro, que se compram em lojas de quinquilharias. Aos poucos, foram-se todos, quebrados ora numa limpeza, ora num esbarrão, ora por uma visita distraída.

Certo dia, viu-se sem cinzeiros e fez a coisa mais detestável que fazem os fumantes: bateu as cinzas num copinho com água. Enojada, resolveu reabastecer a casa – em cada cômodo, um cinzeiro, pronto.

Foi diretamente a uma loja onde sempre comprava os tais cinzeirinhos vítreos. Não havia, acabaram-se. Toca pra outra. Não temos, disse a vendedora. Está em falta, na terceira. Estranho. Não há cinzeiros nesta cidade?

Decidiu levar uns de cobre; vêm três num saquinho, ainda mais baratos do que os de vidro. Encheu a casa com eles. Sentava-se na sacada do apartamento, diante do mar, e fumava tranquilamente seu cigarrinho.

Alguns dias depois, percebeu que os cinzeiros novos estavam se enegrecendo. Maldita maresia, esqueci-me disso. Foi então que teve a ideia de passar esmalte de unhas nos objetos. Isso vai criar uma película protetora, imaginou. E assim o fez. Logo, todos os recipientes estavam envernizados, secando ao sol. À noite, já estarão bons, calculou.

Fim de jornada, antes de dormir, fumou seu indefectível último cigarro do dia. Apagou-o num dos cinzeirinhos recém-envernizados, mas não de todo. Restou uma brasinha, não percebida, que ficou ali, fumegando, misturando-se ao esmalte e ao zinabre anterior.

Dessa mistura, expeliu-se um gás asfixiante que tomou conta de todo o quarto. Morreu dormindo, sufocada pela fumaça desprendida do cinzeiro. No velório, a irmã lamentava: Não disse que o cigarro ainda a mataria?

terça-feira, 10 de março de 2009

Andei sumida

Primeiro, em João Pessoa;

A seguir, no carnaval em Olinda;

Na barraca do partido;

Com camaradas e amigos;

No meio da banda.

Depois, uma esticada a Porto de Galinhas;

E de volta ao RN: Pirangi.

Ô, vida ruim!


Mas as férias se acabam. E retorno à boa e velha casinha.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2009










Eu era uma pessoa feliz. Cantava muito, várias vezes ao dia. Curtia axé, música que me fazia rir, além de dar uma vontade danada de dançar, sair de casa, paquerar. Alegria, letras divertidas, engraçadas, mesmo as de amor, levantam o astral da gente, a vontade é de sorrir sempre. O máximo que se sofre é com alguma baladinha mais romântica da Ivete Sangalo.

Muito feliz, era eu, até o dia em que se mudou uma moradora para o apartamento ao lado do meu. O prédio é pequeno, a gente tem de tomar cuidado com o barulho, quase sempre dá para ouvir o programa de TV ou a música do apê vicinal. Eu escutava meus discos num volume alto, reconheço, todo mundo gosta de axé, não é? Nunca me preocupei porque ninguém reclamava. A vizinha tampouco. Mas, depois de algum tempo, também pôs música a tocar.

Aí começou meu calvário. Ela gosta de MPB das antigas, Bossa Nova, samba, alguma coisa latino-americana, por aí. Um sofrimento sem fim, uma tristeza. Comecei a sofrer com os retirantes nordestinos, um tal de Edu Lobo, borandá que a chuva não chegou, pra acompanhar Asa Branca, do Luiz Gonzaga, um cara que só faz a gente chorar, saudade amarga que nem jiló, o meu remédio é cantar.

Tive de aprender história do Brasil, sofri tanto com a ditadura militar! Ora João Bosco e Aldir Blanc, na voz de Elis Regina, falando de exilados e do irmão do Henfil, ora Geraldo Azevedo cantando a metáfora do regime de exceção. E eu pensava que já vou embora, mas sei que vou voltar, amor, não chora, era só uma música de amor... E o Gil? Ele verteu um reggae jamaicano para o português só para falar dos amigos presos, amigos sumindo assim pela ditadura, ô gente que gosta de cantar desgraça.

Estranho, ela não parece muito triste, a vizinha, uma coroa assanhadinha que usa roupas curtas e coloridas. Mas deve ter a alma em prantos, não é possível alguém ouvir essas coisas e não sofrer. Naquela voz grave e tristíssima da Mercedes Sosa, a Alfonsina se mata no mar, sabe diós que angustia te acompañó, que dolores viejos calló tu voz? Quem é que não se acaba de tanto chorar? Ah, em espanhol, ela também ouve Silvio Rodrigues, o cubano, minha Nossa Senhora da Revolução, quase desidratei de tanto choro com a versão do MPB4, esse amor é tudo quanto tenho e, se eu vendo ou empenho, para que respirar?

A vizinha passou o carnaval ouvindo Nana Caymmi, alguém acredita? Um sofrimento que não acaba mais, sussuarana, meu coração não me engana, vai fazê cinco sumana, tu não vorta nunca mais, junto com a Maria Bethânia, coisa mais dolorosa. Fiquei macambúzio durante toda a folia só ouvindo a baiana cantar boleros.

Por falar em baianos, ai, meu Senhor do Bonfim! Eu achava que a Bahia era só axé. Mas é um desespero, por exemplo, esse Dorival Caymmi, a gente faz o que o coração dita, mas este mundo é feito de maldade e ilusão. Que aperto no peito! Olhe, Caetano Veloso cantando que sobre toda estrada, sobre toda sala, paira, monstruosa, a sombra do ciúme me deixou os olhos úmidos por dois dias seguidos. Almas esticadas no curtume? Valha-me, minha Nossa Senhora da Penha.

Agora, as músicas de Maysa estão de volta ao sucesso, por conta da série de televisão, mas eu conheci aquela pérola de tristeza do Tom Jobim e Aloysio de Oliveira de que ando bebendo demais, que não largo o cigarro e dirijo meu carro com a Ângela Ro Ro. Eita, que até os pops que a vizinha ouve são tristes.

Mas o pior de todos é o tal do Chico Buarque, de quem ela tem mais discos. Com esse cidadão, tive de sofrer com os sem-terra, levantados do chão, como em sonho perder a passada e no oco da terra tombar? Descobri que tem sem-terra até em Portugal, que coisa! Da ditadura brasileira, então, nem é bom falar, é uma verdadeira aula de história e de sofrimento. É o Stuart Angel torturado com fumaça de óleo diesel pra cá, a Zuzu Angel, essa mulher que só queria lembrar o tormento que fez o meu filho suspirar pra lá! E sangue nos olhos e lama nos sapatos é pra se matar, não é?

E o suprassumo da melancolia, saudade do que ainda não se viveu (como é que alguém imagina saudade do futuro, minha gente?). Tive de pegar licença de três dias no trabalho depois de acreditar que o dia vai raiar só porque uma cantiga anunciou: não conseguia parar de chorar!

Não vou nem comentar as músicas de amor, caso contrário, eu ardo de desejo ou perdemos a noção da hora. Começo a me perguntar de que romance antigo me roubaste e penso que na verdade não me queres mais. Não dá, arrasa o meu projeto de vida. É loucura, às vezes, acho que a vizinha perdeu a saia, perdeu o emprego, bebeu veneno e vai morrer de rir.

O Natal, essa mulher passou ouvindo que o Papai Noel morreu. Como é que alguém escuta isso nas festividades? Acho que é a mais triste música de Natal de todos os tempos. Estraga a festa de qualquer cristão. O autor, Assis Valente, matou-se. Não era pra menos. E o Taiguara? Não gosto nem de me lembrar, nesta vida sem amor que eu aprendi... pô!

Sei que os dias têm sido assim, difíceis, desde que a vizinha se mudou para cá. Realmente, eu era feliz e não sabia... acho que já estou ficando paranóico. Mas ouvi uns boatos no corredor e me parece que ela vai-se mudar. Animei-me, penso que poderei novamente ser alegre. Vou chamar os amigos e fazer uma festa. Baixar uma coletânea da Cláudia Leite no mp3 e mandar ver. Sorrir e ser feliz, como antes. Chega de saudade.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Que le temps passe vite!

No dia 12 de dezembro de 2008, um ano vivendo em Natal.

No dia 14 de dezembro de 2008, 44 anos de idade, comemorando pela segunda vez meu aniversário em Natal.

No dia 7 de janeiro de 2009, completarei um ano trabalhando na PFRN.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

PROMOÇÃO DE VERÃO!



Venha para a Pousada Ana Cródia* e ganhe um delicioso almoço!

Peixe à Cródia:

Temperadas com limão, sal e alho, deitadas a marinar e regadas com azeite, são as postas de peixe levadas ao forno. Enquanto assam, cozinha-se alcaparra, cenoura e chuchu, somente com sal. Os legumes, cortados em filetes e refogados em manteiga, são jogados sobre o peixe assado. Acompanha arroz branco.

Experimente essa delícia!

Incluídos no pacote: traslado, espetinho de camarão na sacada e a agradabilíssima companhia da dona da pousada.

*Em breve, fotos da pousada e de sua bela proprietária.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O tesouro

Certa manhã, acordou esquisita. Isso deve ser da idade, pensou, já não sou menina. A sensação perdurou durante todo o restante do dia, no trabalho, no ônibus, na rua. Em casa, ao jantar, com um prato de sopa diante de si, tomou a decisão. Começaria a economizar, guardar bens, valores, qualquer coisa.

No dia seguinte, saiu de casa mais cedo e passou por um pequeno comércio de quinquilharias. À noite, abriu a sacola que trouxera da lojinha e dali retirou uma caixa de madeira, de trinta centímetros quadrados. Recortou pedaços de feltro, que colou nas paredes internas, e finalizou o trabalho fechando a peça com uma chavezinha de metal. Se não de ouro, ao menos dourada, contentou-se.

Desde essa noite, não pensava em nada que não fosse conseguir objetos para guardar na caixa. Obviamente, não dinheiro, mais bem-guardado no banco. Queria coisas reluzentes, algo que as reviravoltas da economia não ameaçassem de desvalorização.

Tudo o que lhe parecesse de valor ia para dentro do abrigo. Quando meus herdeiros puserem os olhos sobre este tesouro, saberão que lhes doei coisas que me são caras, pensava. Uma pessoa não pode passar a vida em vão, sem deixar nada a ninguém, sem um legado, a não ser o da miséria da espécie, que a esse todos têm acesso.

Chegava a se sentir feliz imaginando o dia de sua morte, com a família a usufruir as riquezas. E o tal não demorou. Um acidente com o ônibus em que ia ao trabalho foi suficiente para lhe pôr fim à existência e à de uns quantos usuários do transporte.

Depois do enterro, já em casa, os irmãos arrumavam as poucas e puídas peças de roupa, guardavam sapatos, produtos de maquilagem, quando um deles encontrou no guarda-roupa a caixa do tesouro. Na parte de cima, à caneta: “Aos meus”. Chamou os outros, juntaram-se para ver a novidade.

Aberta a caixa, que desprendia um cheiro de tabaco envelhecido, os irmãos encontraram, entre vários cigarros soltos pela peça, já com o papel amarelecido e o filtro murcho, pedras coloridas, pedaços de vidro e acrílico, rolhas de cortiça e um papelinho com as bordas carcomidas onde se lia: “...eu ainda a sofrer dos efeitos da queda de um cavalo que nunca montei”*.
_________________________________________________
*José Saramago, in As Pequenas Memórias

sábado, 5 de abril de 2008

Da série "Indagações"

Tenho dois relógios.
Um me aperta o pulso.
O outro fica frouxo.
Sou eu que não caibo no mundo ou é o mundo que não cabe em mim?

terça-feira, 4 de março de 2008

Sequei

Na umidade de Natal, seco.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Quando se encontra o amor

Nada mais me importa.
Ergue-te, traz-me vinho.
Brindemos.
Hoje, meu grande amor entrou na minha vida definitivamente.
Tudo o que eu queria, aquilo de que necessitava, meus anseios e sonhos realizados.
Não poderia estar mais feliz, leve estou, de tanta felicidade.
Não pensava que a pudesse alcançar nessa plenitude.
Meu amor, meu amor, ela é linda!
Não sei como pude viver sem ela todo esse tempo, mas sei que foi um período perdido, estéril.
Agora, sei que precisava dela para viver.
Ela preenche minha vida, não sei o que faria sem sua presença.
E, agora, definitamente, em minha casa, de onde nunca mais sairá.
Sei que os amores acabam, mas quero que o nosso seja eterno, lutarei por isso.
Neste momento, enquanto escrevo estas linhas, ouço seu leve arfar na sacada do apartamento e me tranqüilizo, pois sei que ela está aqui, comigo.
Nunca pensei que esse amor, tido como diferente, "amor que não ousa dizer seu nome", pudesse me fazer tão plena, realizada.
Minha branquinha, chegou hoje, vai ficar para sempre em minha vida.
Digo-lhe com todo meu coração: amo você, minha máquina de lavar roupas!

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Diário de Natal II

Sábado, 2 de fevereiro de 2008
Não fui à Redinha na sexta, uma pena. Hoje, Moraes Moreira em Ponta Negra, lá fui eu. Não muita gente, a maioria de fora. O povo da cidade migra para as praias próximas ou para o interior. Dizem que, por lá, o carnaval ferve. Conheci Marcelo. O espetáculo estava bom, nada pululante como nos de bandas de "axé" (seja lá o que isso for), tudo mais tranqüilo, musiquinhas. Algumas do meu tempo, outras desconhecidas, não acompanho a carreira do compositor. Divertido. Ao fim, o local quase vazio, alguns paulistas, com instrumentos musicais, danaram a cantar MPB. Cantei, também, sou cantora, vocês sabem. Só me falta aprender a cantar. Marcelo me levou para casa. Sem mais novidades.

Domingo, 3 de fevereiro de 2008
Marcelo apareceu em casa. Levou ingredientes, fez comida, lavou louça. Passou o dia todo por lá. Não pude fazer mais nada que não fosse companhia a ele.

Segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Marcelo não sai da minha casa. Não vi mais nada do carnaval.

Terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Último dia de carnaval. Sei que prometi um diário, mas houve imprevistos. O primeiro e maior deles, Marcelo. Mas na terça resolvi ver o carnaval, ou seja, o que ainda restava da festa. Combinei, então, com Carlos, um de meus inúmeros pretendentes, de ir à Ponta Negra. Minha intenção era curtir a praia e, à noite, ver algumas bandas que se apresentariam por lá, em algum lugar chamado Praça de Ponta Negra.

Inventei uma desculpa para Marcelo e fugi, na hora do almoço, para me encontrar com Carlos. Cinqüentão, nome de papai. Édipão, hein?. Vamos lá, vai ser divertido. Encontrei-me com ele já na avenida principal, Roberto Freire. Descemos à praia e ficamos na areia, pegando um bronze. Carlos é o que se pode chamar de um porre, no mau sentido. Bebe uma cervejinha, mas não fala nada, não gosta de nada, implica com tudo, um velho ranzinza, como eu, mentalmente, passei a chamá-lo. Poucos anos a mais do que eu, mas não consegui evitar a denominação.

Pensei com os botões do meu biquíni que iria almoçar e dar um jeito de me escafeder dali para curtir o carnaval. Pois estava eu, nessa linda tarde ensolarada, pensando na melhor maneira de escapulir ao chato, quando, adentrando o mar, uma onda maldosa me derrubou sobre umas pedras. Não há pedras em Ponta Negra, nunca vi pedras em Ponta Negra. Não sei de onde apareceram aquelas.

Minhas coxinhas (adoro eufemismo) ficaram raladas e (céus me ajudem!) sangraram. Tentei evitar um daqueles escândalos que faço quando vejo esse líquido viscoso e encarnado que temos a correr pelo corpo. Não desmaiei, pelo menos. Mas fiquei traumatizada. E ainda tive de ouvir de Carlos algumas pérolas como "uma mulher tão grande..." Tenho culpa se ele é baixinho? Mulheres grandes não podem desmaiar? Resolvemos sair da praia e almoçar.

O almoço foi um saco: coxinhas doloridas e o ranzinza reclamando de tudo. A comida, pelo menos, estava boa. Ao fim, desanimada, com perninhas doendo, resolvi ir-me embora. E não é que Carlos, quase buscando um banquinho no qual subir, tentou me beijar? Ora, faça-me o favor. Voltei para casa mais cedo do que previra e sem carnaval. Quando lá cheguei, Marcelo ligou. Não quis ficar para o show em Ponta Negra? Contei-lhe o ocorrido, omitindo a participação do chato. Posso ir até aí? Pode, Marcelo

Quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Cinzas. Perdido o carnaval, eu já conformada, preparando-me para ir à repartição, que funcionaria à tarde. Logo cedo, aparece Marcelo, perguntando se queria ir à Redinha ver as últimas manifestações carnavalescas. Expulsei-o. À tarde, trabalhei.
E a vida voltou ao normal.

___________________________________

Para o dicionário. Cafife é um bichinho, muito miúdo, que sobe pelo corpo das pessoas aos magotes (não sei o coletivo desse bicho), causando coceira, aflição e angústia no(a) pobre atacado(a) pela sanha invasiva dos animaizinhos. Daí, encafifado. Não fiquei muito convencida, porque, na minha terra, encafifado é intrigado, pensativo, preocupado. Não imaginei nenhum "encafifado" aflito, coçando-se todo. Mas o Luft dá encafifar como vexar(se), constranger(se), aborrecer(se). Então, ficar se coçando é uma coisa que avexa o cabra.



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Diário de Natal

Inauguro, hoje, meu Diário de Natal. Os ardorosos, libidinosos e ansiosos leitores de Ana Silva, brindo com essas pérolas de textos, extraídos dos momentos mais intensos vividos por mim nesta terra maravilhosa, cidade iluminada (ô, põe iluminada nisso, já tô preta, de tanto sol, como nunca estive em toda minha vida!). Do carnaval, tão efervescente quanto o de Campo Grande, às minhas aventuras e desventuras amorosas, saberão tudo o que se passa nestas plagas, tão próximas do Equador (tanto que queima...). E que meus remorsos sejam leves, agora, quando aprendi que galinhar é a melhor maneira de ser romântica.

________________________________________________


Quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Ontem, fui ao "Baile de Máscaras do Atheneu", um evento na rua, lançamento do carnaval da cidade, no Largo do Atheneu, em Petrópolis, bem pertinho da minha casa. Dancei um pouquinho, discretamente, por óbvio, já que mulher séria sou.

Hoje, talvez vá à Redinha (não se esqueçam, Ridinha, com "d" palatal), onde haverá, no Palco do Cruzeiro, apresentação de Donizete Lima. Não conheço nem local nem cantor. Mas a praia, sim.

Amanhã, Moraes Moreira em Ponta Negra. O ônibus que vai a esse destino pára na frente da minha casa. Não é força de expressão, o ponto fica mesmo diante do meu apartamento. Acho que vou lá ver o tal, lembrar-me das musiquinhas da década de 80 e ver quais mais ele inventou.


O trajeto do coletivo é pela Via Costeira, que, como o nome indica, segue a orla; o visual é lindo, e a viagem, bem gostosinha, apesar de curta, uns 15 ou 20 minutos. Acho que vou cedo para lá, assim, aproveito a praia durante o dia e já fico para a festa no fim da tarde. Isso se não encher a cara (nem sei por que pensei em tal hipótese).

Ainda não me programei para domingo, segunda e terça. Vamos ver o que acontece. Também vai depender dos convites que receberei para as festas, já que conquistei uma quantidade considerável de pretendentes potiguares. Como não me canso de repetir: sou uma mulher linda. E mentirosa.

É isso, acho. Na quarta-feira, que sói ser de cinzas, contarei venturas e desventuras do carnaval de Natal. Ou serão de Natal no carnaval? Como é isso? Não entendi. Que data é, afinal? Carnaval ou Natal? Tenho direito a piadinhas infames, não?

P.s.: Ah, para o dicionário da nova terra. Hoje, no salão da manicura, falando de dinheiros, ouvi dizer que as pessoas põem as moedas no mieiro. Depois de algumas perguntas, descobri que se trata de um cofrinho, desses, que normalmente se tem em casa. Percebi que a palavra original é mealheiro, de amealhar. Certo? É o mesmo processo de "ingiar", por exemplo, palavra que me surpreendeu sobremaneira quando soube que seu significado era o mesmo de engelhar.

P.s2: Sei que ninguém me pediu o diário do carnaval, mas mando assim mesmo. Agüentem-me

domingo, 27 de janeiro de 2008

Beco da Lama

Estou no Beco da Lama, em Natal. Venho sempre aqui, encontro os amigos, bebo, converso, fico alegre. Bares, barracas, churrasquinho, cerveja, cachaça, papo animado. Música. Gente boa.

Aos poucos, fica-se mais feliz, fala-se mais, a conversa quase aos gritos, rio-me. A noite está boa, promete. Tenho 45 anos, uso um macaquinho de brim, camiseta, sandália rasteira, o cabelo solto, apesar do vento. Gosto de soltá-los, são crespos e longos, chegam até o meio das costas. Estou bonita.

Os homens começam uma conversa engraçada sobre a mulher que foi assassinada na Redinha. Traía o marido. Ele a esfaqueou, foi notícia nos jornais. Eles se riem, dizem que o corno não era manso. Rio-me também.

Estamos bem no meio do beco, na calçada do bar mais freqüentado. Na outra esquina, vejo o menino. Ele se aproxima. Parece uma criança, mas já tem quase 30 anos. Negro, o cabelo quase raspado, magro, bermudas e chinelo. Ele vem para a mesa, já sei. Conhece todo mundo. Não me importo. Estamos em festa. Estou no bar.

Na mesa, todos alegres. O menino também. Está tudo bem, é uma noite gostosa. Ele já chegou bêbado. Eu não estou menos, aqui há tanto tempo. Ele me afronta. Não sei para que, não me incomodo.

O menino insiste na provocação. Ele me irrita. E me ofende. Vou para cima dele, não levo desaforo. Quem tu tá achando que é, infeliz? Pensa que tá falando com quem? Ele responde com risadas, parece aéreo. Ri-se. E me chama de noiada.

Furiosa, afronto-o, quem tu tá chamando de noiada, seu. bosta? Ele continua achando graça, isso me enfurece mais. Saio de onde estou, rodeio a mesa e chego até ele. Que é que tu tá falando? Meto-lhe a mão na cara, ele se esquiva, rindo-se. Os outros da mesa se levantam, tentam me acalmar, põem-se entre mim e o menino. Não quero saber, desvio-me deles, quero alcançá-lo.

Avanço sobre ele. Sem parar de rir, levanta-se, foge, mas não deixa o bar, rodeia a mesa, eu o sigo. Um neguinho desses me chamar de noiada? “Ué, se fosse branquinho, podia?” A frase vem de uma mulher gorda, com cara de turista, na mesa ao lado. Olho-a, por alguns segundos, fixa e duramente. Fuzilo-a. Ela se retrai, desvia o olhar, abaixa a cabeça. Volto-me ao menino.

Vem cá, merda. Quero ver, agora. Corro atrás dele, os homens tentam me segurar. Ele entra no bar. Vou atrás. Na porta, há engradados cheios de garrafas vazias. Pego uma. Quero quebrá-la em sua cabeça. Mil braços envolvem meu corpo. Seguram-me de todas as maneiras, querem impedir-me. Deixa eu acabar com esse neguinho, quem é noiada, safado?

Com a garrafa na mão, o braço no ar, seguro por outras mãos, o menino lá dentro, sou puxada, empurrada, uma nuvem de gente em torno de mim, não o alcanço. Levam-me pra fora, aos gritos. Tiram-no do bar, pedem-lhe que se vá. Ele não atende, continua pela calçada, rodeia as mesas, ri-se.

Eu grito, ainda me seguram. Tu te lembra quando chegou aqui? Um neguinho, com fome, sem cueca, a bunda suja de bosta. Com os movimentos que faço para me livrar dos braços que me prendem, meus cabelos, revoltos, entram pelo meu rosto, pela minha boca.

Tiram a garrafa de minhas mãos, estou cansada, mas ainda quero alcançá-lo. Não me soltam. Grito. Tu é um fudido, dormia na rua, o cara comia teu cu, aqui na calçada. Eu que te levei pra casa, te dei banho, te dei comida. Tu vem me chamar de noiada? Vem cá pra ver se tu é homem.

Alguns homens vão até ele. Pegam-no pelo braço, levam-no, dobram a esquina do beco, desaparecem. Soltam-me, ajeito os cabelos, volto à mesa. A garçonete traz mais uma cerveja. Sento-me, olho em volta. Ninguém se abala, tudo como dantes. Em suas mesas, freqüentadores bebem, conversam, a música toca. Rio-me. A turista foi embora.
_____________________________________________________

Tentativa de narrar fato no passado com verbo no presente. A formalidade da narrativa, langue, é interrompida apenas pelas intervenções diretas da narradora, parole.
Dizem que, quando o diretor explica a peça ao público, um dos dois é burro. Serei eu, mestre?
Ah, à Hitchkock, faço uma ponta.