Essa foto tem cheiro de pão fresco na manhã. Lembrei-me do padeiro que nos fornecia pães em curitiba,nos anos sessenta. Ele vinha de Kombi e deixava os pães no saco de algodão branco bordado que era deixado na porta da frente na casa. No dia em que o padeiro vinha cobrar a caderneta, durante a tarde, nós crianças da vila, ficávamos na espreita, era só ele bobear que nós faturávamos um ou outro doce, tipo sonho, de dentro da Kombi largada aberta. Hoje penso que se eu tivesse a consciência de que o padeiro tinha tantas bonecas para sustentar talvez eu não afanasse sonhos dele.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Meu coração não se cansa de ter esperança
Essa foto tem cheiro de pão fresco na manhã. Lembrei-me do padeiro que nos fornecia pães em curitiba,nos anos sessenta. Ele vinha de Kombi e deixava os pães no saco de algodão branco bordado que era deixado na porta da frente na casa. No dia em que o padeiro vinha cobrar a caderneta, durante a tarde, nós crianças da vila, ficávamos na espreita, era só ele bobear que nós faturávamos um ou outro doce, tipo sonho, de dentro da Kombi largada aberta. Hoje penso que se eu tivesse a consciência de que o padeiro tinha tantas bonecas para sustentar talvez eu não afanasse sonhos dele.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Assassina serial
Balançando os cabelos esticados com escova progressiva, num tom de loiro que contrastava com sua bela pele morena, Cátia K. dirigiu-se à festa. Ao som do axé em altíssimo volume apesar do horário – já passava das duas da manhã –, ela se misturou à multidão que dançava freneticamente, com os braços estendidos, e repetia o refrão da música. No palco, armado sob uma enorme tenda branca, o cantor se esmerava nos gritos, acompanhado de moças vestidas sumariamente, que se movimentavam numa coreografia copiada pelo público.
Misturada à multidão, Cátia K., rebolando, dirigiu-se aos poucos à lateral do palco. Sem ser percebida, logo estava diante da potente aparelhagem de som que sustentava o espetáculo, um verdadeiro aparato. Enquanto observava o local, ouviu o grito do cantor: “Tira o pé do chããããão!”, seguido de um entusiasmado urro coletivo. Sua mão coçou nervosamente o cabo da arma, uma Magnum 45 com silenciador, escondida sob o cós da minissaia, à guisa de coldre. Calma, pensou, você é uma profissional. Há trabalho a fazer.
Recuperada a serenidade, continuou a análise do local. Caminhou por trás do palco observando a quantidade de pessoas que circulavam por ali. Poucas, percebeu. É o momento. Retornou à área do som e permaneceu alguns segundos olhando as enormes caixas. Num relance, Cátia K. sacou a arma e disparou contra a base do amplificador. O ruído do disparo, amortecido pelo silenciador da arma, foi tão insignificante quanto a faísca resultante da detonação. Boas as aulas de eletrônica, celebrou.
Uníssono “oh” de decepção foi a reação da plateia, surpresa pelo desaparecimento da música, muitos rapazes e moças ainda com os glúteos para cima, no auge de um movimento da agitada dança. No palco, cantor e dançarinas, atônitos, não sabiam o que fazer. Em volta, técnicos e organizadores corriam, dirigindo-se aos fundos do palco, confusos, em barafunda.
Rapidamente, Cátia K. escondeu seu revólver no cós da roupa, olhou de um lado e de outro e se voltou para a frente do palco, junto à multidão. Logo se perdeu no meio das quinhentas e trinta e nove meninas com camisetes brancas, minissaia jeans, cabelos esticados e tingidos de loiro. Caminhando devagar, fingia estar tão perplexa quanto os outros participantes.
De repente, ouviu-se um chiado eletrônico. Uma voz metálica, parecendo distante, anunciou o uso de som auxiliar, que dava possibilidade de funcionamento do microfone, mas, infelizmente, era impotente para a continuidade do espetáculo, portanto, definitivamente cancelado.
Em meio à decepção generalizada, Cátia K. começou a sair de entre o público, que iniciava um esboço de revolta, com gritos esparsos de “queremos show”. Devagar, ela se foi retirando, olhando ao redor, disfarçadamente, até chegar ao furgão. Lá, vidros fechados, desfazendo-se da incômoda peruca, deu a partida no veículo. Um axé a menos, sorriu, satisfeita.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Pesadelos
Da série Confissões
Normalmente, não sonho. Dizem que se sonha todos os dias, mas nem sempre restam lembranças. Não sei. Acho que sonho pouco. Dos sonhos bonitos, lembro alguns. Há os emocionantes, também. O que não esqueço são os pesadelos. Por que é que a gente tem de lembrar mais o que é ruim?
Com o trânsito, por exemplo, tenho pesadelos constantes. Vejo-me dirigindo, agarrada ao volante, perseguida por outros carros em alta velocidade. Só sei que tenho de pisar fundo e fugir. Parece aquele jogo de videogame que simula uma pista de corrida. Tenho horror àquilo, não jogo nem sob tortura. Acordo assustada e, de vez em quando, tenho a mesma sensação quando estou na rua de verdade.
Outro pesadelo é acordar no meio da noite achando que estou deitada em água. Desperto apalpando o colchão. Comecei a ter esse sonho desde que me mudei para Natal. Talvez porque nunca tenha visto tanta umidade na minha vida. Sou bicho de cerrado, terra seca. O inverno aqui é de chuva por três ou quatro meses. Então, às vezes tenho esse sonho: estou de novo no porão da Polícia Federal, onde fiquei presa por 24 horas, numa cela com uma cama de alvenaria, contígua à parede e pintada com tinta a óleo.
Sem cobertura, colchonete ou manta, era fria como o diabo. Com o chão inundado, o que esfriava ainda mais o ambiente, passei a noite sobre a tal cama de tijolo, acocorada, com medo de pôr os pés no chão por conta dos insetos que infestavam o local. Pois eu acordo com a impressão de que estou naquela celinha alagada. Tenho de tatear ao redor até perceber que estou na minha cama, seca e limpa.
Mas o pior de todos os sonhos é com insetos. Especificamente baratas. Tenho fobia a esse bicho. Aliás, horror a qualquer bicho, mas essa coisa pré-histórica é de arrepiar, de se jogar pela janela. Por conta desse maldito animal, nem consegui ler direito A Metamorfose, do Kafka. Eu começava a leitura e tinha engulhos, foi uma dificuldade. Nos meus pesadelos, vou à cozinha ou a outro cômodo da casa e encontro uma barata imensa. E ela, parada, começa a crescer até ficar do tamanho de um urso. É de acordar gritando.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Questão estética
Estávamos parados no ponto de ônibus. Sem assunto, calados, os dois absortos, talvez pensando no filme que acabáramos de ver. Olhávamos a avenida, quase vazia, naquele fim de tarde de domingo. Ao longe, do outro lado da via, uma enorme motocicleta, triciclo, reluzente, passeava devagar. O piloto, um homem grande, gordo, quase deitado sobre o banco, com uma longa barba grisalha. Um quepe preto cobria-lhe a cabeça; colete e calças de couro completavam a indumentária, roupa e veículo cobertos de penduricalhos e adereços que brilhavam mesmo sob o sol fraco. Oscar respirou fundo e, sem voltar a cabeça para mim, olhos fitando o horizonte, começou a falar num tom baixo e monocórdio.
– Então, me prometa. Se um dia você me vir vestido desse jeito, você me mata?
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quinta-feira, 19 de março de 2009
Por uns cobres a mais
Tinha cinzeiros espalhados pela casa toda. Desses de vidro, que se compram em lojas de quinquilharias. Aos poucos, foram-se todos, quebrados ora numa limpeza, ora num esbarrão, ora por uma visita distraída.
Certo dia, viu-se sem cinzeiros e fez a coisa mais detestável que fazem os fumantes: bateu as cinzas num copinho com água. Enojada, resolveu reabastecer a casa – em cada cômodo, um cinzeiro, pronto.
Foi diretamente a uma loja onde sempre comprava os tais cinzeirinhos vítreos. Não havia, acabaram-se. Toca pra outra. Não temos, disse a vendedora. Está em falta, na terceira. Estranho. Não há cinzeiros nesta cidade?
Decidiu levar uns de cobre; vêm três num saquinho, ainda mais baratos do que os de vidro. Encheu a casa com eles. Sentava-se na sacada do apartamento, diante do mar, e fumava tranquilamente seu cigarrinho.
Alguns dias depois, percebeu que os cinzeiros novos estavam se enegrecendo. Maldita maresia, esqueci-me disso. Foi então que teve a ideia de passar esmalte de unhas nos objetos. Isso vai criar uma película protetora, imaginou. E assim o fez. Logo, todos os recipientes estavam envernizados, secando ao sol. À noite, já estarão bons, calculou.
Fim de jornada, antes de dormir, fumou seu indefectível último cigarro do dia. Apagou-o num dos cinzeirinhos recém-envernizados, mas não de todo. Restou uma brasinha, não percebida, que ficou ali, fumegando, misturando-se ao esmalte e ao zinabre anterior.
Dessa mistura, expeliu-se um gás asfixiante que tomou conta de todo o quarto. Morreu dormindo, sufocada pela fumaça desprendida do cinzeiro. No velório, a irmã lamentava: Não disse que o cigarro ainda a mataria?
terça-feira, 10 de março de 2009
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Muito feliz, era eu, até o dia em que se mudou uma moradora para o apartamento ao lado do meu. O prédio é pequeno, a gente tem de tomar cuidado com o barulho, quase sempre dá para ouvir o programa de TV ou a música do apê vicinal. Eu escutava meus discos num volume alto, reconheço, todo mundo gosta de axé, não é? Nunca me preocupei porque ninguém reclamava. A vizinha tampouco. Mas, depois de algum tempo, também pôs música a tocar.
Aí começou meu calvário. Ela gosta de MPB das antigas, Bossa Nova, samba, alguma coisa latino-americana, por aí. Um sofrimento sem fim, uma tristeza. Comecei a sofrer com os retirantes nordestinos, um tal de Edu Lobo, borandá que a chuva não chegou, pra acompanhar Asa Branca, do Luiz Gonzaga, um cara que só faz a gente chorar, saudade amarga que nem jiló, o meu remédio é cantar.
Tive de aprender história do Brasil, sofri tanto com a ditadura militar! Ora João Bosco e Aldir Blanc, na voz de Elis Regina, falando de exilados e do irmão do Henfil, ora Geraldo Azevedo cantando a metáfora do regime de exceção. E eu pensava que já vou embora, mas sei que vou voltar, amor, não chora, era só uma música de amor... E o Gil? Ele verteu um reggae jamaicano para o português só para falar dos amigos presos, amigos sumindo assim pela ditadura, ô gente que gosta de cantar desgraça.
Estranho, ela não parece muito triste, a vizinha, uma coroa assanhadinha que usa roupas curtas e coloridas. Mas deve ter a alma em prantos, não é possível alguém ouvir essas coisas e não sofrer. Naquela voz grave e tristíssima da Mercedes Sosa, a Alfonsina se mata no mar, sabe diós que angustia te acompañó, que dolores viejos calló tu voz? Quem é que não se acaba de tanto chorar? Ah, em espanhol, ela também ouve Silvio Rodrigues, o cubano, minha Nossa Senhora da Revolução, quase desidratei de tanto choro com a versão do MPB4, esse amor é tudo quanto tenho e, se eu vendo ou empenho, para que respirar?
A vizinha passou o carnaval ouvindo Nana Caymmi, alguém acredita? Um sofrimento que não acaba mais, sussuarana, meu coração não me engana, vai fazê cinco sumana, tu não vorta nunca mais, junto com a Maria Bethânia, coisa mais dolorosa. Fiquei macambúzio durante toda a folia só ouvindo a baiana cantar boleros.
Agora, as músicas de Maysa estão de volta ao sucesso, por conta da série de televisão, mas eu conheci aquela pérola de tristeza do Tom Jobim e Aloysio de Oliveira de que ando bebendo demais, que não largo o cigarro e dirijo meu carro com a Ângela Ro Ro. Eita, que até os pops que a vizinha ouve são tristes.
Mas o pior de todos é o tal do Chico Buarque, de quem ela tem mais discos. Com esse cidadão, tive de sofrer com os sem-terra, levantados do chão, como em sonho perder a passada e no oco da terra tombar? Descobri que tem sem-terra até em Portugal, que coisa! Da ditadura brasileira, então, nem é bom falar, é uma verdadeira aula de história e de sofrimento. É o Stuart Angel torturado com fumaça de óleo diesel pra cá, a Zuzu Angel, essa mulher que só queria lembrar o tormento que fez o meu filho suspirar pra lá! E sangue nos olhos e lama nos sapatos é pra se matar, não é?
É questão de gênero aqui, dia ímpar tem chocolate, dia par eu vivo de brisa, dia útil ele me bate, dia santo ele me alisa; questão racial ali, negra é a vida consumida ao pé do fogão (essa, do Gil); questão de classe acolá, gente que conhece a prensa, a brasa da fornalha, o guincho do esmeril; desigualdade social mais adiante, lá não tem claro-escuro, a luz é dura, a chapa é quente.
Não vou nem comentar as músicas de amor, caso contrário, eu ardo de desejo ou perdemos a noção da hora. Começo a me perguntar de que romance antigo me roubaste e penso que na verdade não me queres mais. Não dá, arrasa o meu projeto de vida. É loucura, às vezes, acho que a vizinha perdeu a saia, perdeu o emprego, bebeu veneno e vai morrer de rir.
O Natal, essa mulher passou ouvindo que o Papai Noel morreu. Como é que alguém escuta isso nas festividades? Acho que é a mais triste música de Natal de todos os tempos. Estraga a festa de qualquer cristão. O autor, Assis Valente, matou-se. Não era pra menos. E o Taiguara? Não gosto nem de me lembrar, nesta vida sem amor que eu aprendi... pô!
Sei que os dias têm sido assim, difíceis, desde que a vizinha se mudou para cá. Realmente, eu era feliz e não sabia... acho que já estou ficando paranóico. Mas ouvi uns boatos no corredor e me parece que ela vai-se mudar. Animei-me, penso que poderei novamente ser alegre. Vou chamar os amigos e fazer uma festa. Baixar uma coletânea da Cláudia Leite no mp3 e mandar ver. Sorrir e ser feliz, como antes. Chega de saudade.
