sábado, 24 de novembro de 2007

Sujos Lençóis da Realidade

Cláudia Salomão*

Chega às livrarias o mais novo - e esperado - livro de Ana Silva. Sujos Lençóis da Realidade, anunciado pela autora com espalhafato em recentes entrevistas (nas quais respondia a alfinetadas de críticos), é uma obra que promete causar espécie, não somente pela linguagem "suja", mas também pelo estilo burlesco.

Repleto de lugares comuns, frases feitas e idéias preconcebidas, o texto conta histórias passadas na periferia de uma grande cidade, episódios irrelevantes que sua criadora julga profundos retratos da realidade. Os personagens, construídos sem nenhuma fundamentação psicológica - meras caricaturas - parecem saídos de uma telenovela, repetem chavões em diálogos inverossímeis e se comportam como bonecos.

Conhecida por alardear sua literatura como reprodução de experiências próprias, Ana Silva diz que tira seus relatos de incursões a bairros populares, onde "vive o real". Confessa admiradora de textos pornográficos, busca imagens pretensamente chocantes e imita clichês de seções eróticas em revistas de quinta categoria: os órgãos sexuais masculinos são sempre de tamanho desproporcional; as mulheres têm indefectíveis coxas grossas; os coitos são invariavelmente violentos.

A origem jornalística da autora é evidente: sensacionalismo e imediatismo de análise, com sua conseqüente falta de aprofundamento, são recorrentes em toda a obra. Segundo o crítico literário Marco Rinoceronte, "o que ela produz é sacanagem, escritos rasteiros". Contra-atacando, Ana Silva argumenta que seu texto é pleno de entrelinhas onde se vê a luta de classes, a questão de gênero e o preconceito racial, metaforicamente revelados em situações reais e impactantes, seja lá o que isso queira dizer.

Enquanto para a crítica é unânime a péssima qualidade da obra, leitores antecipados (em pré-lançamento destinado a pesquisas de vendagem), divergem. O pedagogo Luís do Timor afirma: "Sente-se o atrito no texto, o conflito de classes, realidades distintas, de forma muito violenta." A administradora Carla Cretina considerou que "isso deve ser literatura". Compulsivas consumidoras de pornografia, Milena Tarada disse que o livro "é uma delícia", e Mercedes Libidinosa, "tive orgasmos múltiplos". Já para o jornalista Alex News, a narrativa "não é nada erótica, é bastante simplória". Raquel Cênica, atriz, considerou-a "decepcionante, o desenvolvimento é muito óbvio".

De qualquer maneira, prevê-se uma boa saída para o livro. No estilo "falem mal, mas falem de mim", Ana Silva provocou reações furiosas de setores moralistas. Oscar Alho, representante do movimento Misoginia Já!, taxou o livro de "pouca vergonha, coisas imorais". Isso pode ser uma boa propaganda: a famosa empresária Lídia da Zelite insistiu em patrocinar a obra, divulgando-a em seu próprio blog, e a escritora almeja sua transposição para o cinema.

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*Cláudia Salomão, jornalista e metida a besta

terça-feira, 6 de novembro de 2007

São Sebastião

São Sebastião, crivado, nublai minha visão(“Derradeira Estação”, de Chico Buarque)

Na sexta-feira, fui lá. Estava já um pouco tonta de cerveja, quando ofereci carona a Elisa, empregada doméstica da amiga em cuja casa eu me hospedava. Ela, sob protestos da patroa, que a chama abusada por se dar a liberdades com visitas, sempre me convidava para o forró a que costuma ir, em São Sebastião, cidade satélite do Distrito Federal, uma das mais distantes do Plano Piloto. Alguns chamam de favela.

Eu nunca havia ido a São Sebastião, só ouvia falar. Moradora recente da capital do país, recebia advertências sobre cidades satélites e seus habitantes: Ao pôr o pé num desses lugares, um incauto morre assassinado! Ou de susto.

Na sexta, fui. Levar Elisa ao forró, uma varanda de bar transformada em galpão, o lugar apinhado. Elisa e eu bebendo cerveja. Alguns caras me convidavam para dançar, não sei dançar, recusava. A certa altura, deixei Elisa encostada ao balcão, saí para fumar. Um homem alto, simpático, de longe, sorriu pra mim, chamou-me ao baile. Achei-o bonito. Uns quarenta anos, forte, moreno, cabelos crespos, curtos, agrisalhando-se. Barba por fazer, sorriso doce, meio infantil. Dançamos, fomos para o meio do salão. Aos poucos, encostando cada vez mais os corpos, apertávamo-nos.

Daí para começarmos a nos esfregar não demorou. Eu sentia o cara duro contra minha pele; já alta de cerveja, achava graça, esfregava-me mais, ria. Beijávamo-nos desbragadamente, lambuzadamente, em plena pista. Suas mãos já me acariciavam os seios, não muito discretamente, quando ele me convidou para ir a sua casa. Disse que depois me deixaria no ponto de ônibus. Não sabia que eu estava de carro. Quando saímos, estranhou o veículo, perguntou de onde eu era, quem era. Eu disse. Comprei cerveja em lata, levamos.

A casa – um quarto, nos fundos de um cortiço – teve a porta aberta de um tranco. O chão, sem piso, recebia dois colchões. Um pequeno, curto e fino, de no máximo dez centímetros de espessura, tinha um cobertor dobrado e um travesseiro sujo sobre. O outro, maior, de casal, mas tão delgado quanto o primeiro, abrigava algumas roupas velhas, uns trapos que não consegui identificar.

Ele se sentou sobre algo que não era mesa nem banco, uma tábua colocada em cima de uns tijolos, ao lado de uma pia com algumas panelas velhas, vazias e sujas. Abriu uma lata de cerveja, chamou-me para seu lado. Vem cá, minha branquinha. Sentei-me, agarrou-me. Retraí-me. Comecei a sentir cheiros, ter nojo. Assustei-me. Ele não se deu conta, continuava a me bolinar, beijava-me o pescoço, apertava-me os seios, enfiava a mão entre minhas coxas.

Não conseguia me imaginar sobre aquele colchão, aquilo começou a me dar engulhos. Irritava-me comigo mesma, pequeno-burguesa, idiota, tem medo de miséria, você, que adora fazer discurso de classe? Teoriza agora sobre a vida da pobreza, imbecil, teoriza. Nojenta. Hipócrita.

Iniciei um jogo de esquiva, negando o corpo, desviando-me das mãos. Ele não gostou, agarrou-me o cabelo, segurando firme minha cabeça, arqueada para trás. Esfregou a barba no meu pescoço e perguntou se eu ia “sair fora”. Débil, pedi que parasse. Ele puxou mais meu cabelo, falou que eu estava “tirando” com ele, uma babaquinha do plano piloto não vai me deixar na mão, vocês, do lado de lá, pensam que nós somos inferiores, eu não sou, sei o que quero, você pensou que ia ter uma coisa e encontrou outra, pensou que ia ter o quê, princesinha, loirinha gostosa, com esse coxão, vocês, dos ministérios, têm uma vida de maconha, de cocaína, de sacanagem, pensam que eu não sei, dão uma de bons, mas vivem na farra, você sabe o que vai levar agora.

Com uma das mãos ocupada em me segurar pelos cabelos, usava a outra para me esfregar os peitos, as coxas, a vagina. Apertava-me inteira. E continuava a falar, beijando-me, lambendo-me o pescoço, a boca, o queixo. Levantou-se de um golpe, carregando-me junto, caímos no colchão maior, sobre as roupas. Ele rapidamente se encostou todo em mim, senti que estava duro e era enorme. Assustei-me com o tamanho daquele pênis, choraminguei. Não me deu tempo sequer para que me ajeitasse sobre os trapos, virou-me de lado, agarrou-me com toda a força e pôs todo seu peso sobre mim, não imaginei que fosse tão forte. Impossível desvencilhar-me. Meu vestido, que já era solto e curto, fácil de tirar, foi praticamente arrancado. Assim, de lado, ele me dobrou as pernas, agarrou-me mais forte, amassando meus seios, machucando os mamilos.

Entrou em mim de uma vez, não no ânus, na vagina, mesmo, mas por trás, com a força que deus lhe deu. Eu não estava lubrificada, aquele pau enorme meteu-se dentro de mim, rasgando-me, queimando. Gritei como nunca havia gritado em toda a minha vida. Ele me tapou a boca com a mão, falava fica quieta, vagabunda escandalosa; mordia minha nuca, minhas orelhas, minhas costas, e dava estocadas, mais, mais, mais. Com uma dor jamais sentida, eu gemia e rebolava os quadris contra aquele cacete imenso me comendo as entranhas.

Quando gozou, era um animal, parecia sem controle, sem razão, amassava-me tanto, debatia-se loucamente, pesava tanto sobre meu corpo, com os braços em torno do meu pescoço, apertando-o, que pensei fosse me estrangular, eu sufocava. Imaginei as manchetes no dia seguinte, professora universitária assassinada na cidade satélite.

Ele ainda me fodeu mais três vezes; eu com dor, com nojo, com medo, gozei em todas elas.

Não volto mais a São Sebastião. Vou-me embora daqui.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Aurora

Interior de Mato Grosso, último ano do século XIX, a pequena e recém-fundada cidade de Campo Grande, antes um entreposto comercial, recebia um casal de estrangeiros que vivia numa fazenda próxima e visitava o povoado. Compravam víveres e roupas de criança.

As pessoas da região não compreendiam exatamente qual sua nacionalidade e diziam que ele era “inglês-escocês”, sem saber explicar muito bem o que era isso. As fotos que os familiares herdaram mostravam um homem muito claro, loiro, de olhos azuis. Pelo sobrenome, Estelharde, trocando o lh por ll, podia ser catalão, mas, àquela época, não se podia fiar na origem dos nomes. A esposa, paraguaia, Dona Petrona, tez morena, olhos escuros, o cabelo preto muito liso, sempre arrumado num coque baixo.

Alguns meses depois da visita, num amanhecer de 1900, nascia Aurora. Tinha a pele e os olhos claros do pai; os cabelos lisos da mãe. Já na adolescência se mostrava alta, esguia, de uma languidez típica das meninas da época. As fotos que restaram revelavam uma moça frágil, de semblante cansado. Ou era o modo de retratar gente naquele tempo.

Aurora chegou a conhecer ex-escravos, imagine, dizia ela, naquele fim de mundo de meu deus, aquela fazenda perdida no meio do nada, no meio do mato, tinha coisa que até deus duvida. Seu Estelharde morrera numa emboscada por conta de briga de terra, quando ela estava apenas com um ano. Foi a única filha do casal.

Dona Petrona casou-se novamente e teve outros filhos. O marido gostava de jogo. Perdeu todos os bens do inglês, contava Aurora. A família ficou pobre, sobraram a sede da fazenda, fama e pose de fazendeiros. Aurora, rejeitada pelo padrasto, maltratada pela mãe, que a colocava sobre um formigueiro quando, bebê, sujava fraldas. Aurora apanhou durante toda a infância. Por sujar uma roupa, por quebrar algum objeto. Aurora não foi à escola, Aurora era analfabeta.

Jovem, passava e engomava a roupa de baile das irmãs. Aurora, nome de princesa nos contos de fada, não podia ir. Passava um, às vezes, dois dias inteiros na arrumação das vestes das outras. O padrasto não gostava dela, era branca e mole demais, como ele dizia. “Filha do gringo”. Era mais velha, tinha de cuidar dos afazeres domésticos e dos meninos menores, baile não. Aurora olhava, admirada, as moças mais novas, morenas como a mãe e lindas nos vestidos bonitos, saírem para as festas do povoado.

Aurora lavava as roupas da família no rio. Seguia para o curso d’água que havia nos fundos da sede da fazenda com trouxas, bacias, sabão de cinza. Ensaboava a roupa, batia-a nas pedras. Enxaguava na água limpa e fresca naquelas tardes tão quentes de verão mato-grossense. Pra lá do rio, homens trabalhavam. Lavradores pobres da região, empregados de algum fazendeiro. De longe, o moço bonito olhava Aurora. Ela não sabia seu nome, era mais um deles. Estava sempre sujo de terra, mas os olhos castanhos “cor de mel”, como lembrava Aurora, brilhavam quando o sol batia mais forte.

Às vezes, aparecia na fazenda um mascate, o "turco", trazendo coisas lindas de moça ver. Colares de vidro, tecidos bordados, seda, seda de verdade. E as rendas? Ele tinha perfumes, pó-de-arroz e carmim. O "turco", na verdade um sírio muçulmano de nome esquisito, era baixo, moreno, tinha grossos bigodes pretos. Para fazer os papéis da imigração, havia trocado Hammer Mahmud Farrah por José Pedro Salomão. Encantou-se com Aurora. Moça bonita. Dona Petrona ficou contente. Queria porque queria casar Aurora com o "turco". Até que enfim essa menina vai servir para alguma coisa. Pelo menos vai-se casar com homem que pode dar vida boa a ela.

Mas Aurora nem via o mascate. Ia para o rio feliz, a roupa ficava mais limpa, mais fresca, mesmo no calor. O moço bonito sempre olhando, Aurora um dia arriscou um sorriso. Moço respondeu. A irmã mais nova percebeu os olhares, correu pra mãe e contou que Aurora olhava e sorria. Aurora levou bronca, foi proibida de ir ao rio. Ficar sem carregar a trouxa, ensaboar, bater e enxaguar a roupa não era um prêmio. Castigo de não ver o moço.

E o sírio aparecia, com fazendas umas mais bonitas do que as outras. Cada renda linda. Cada perfume cheiroso. A maleta de couro escovado, limpinha, sempre cheia de novidades. O José arrumado num terno escuro, elegante, o bigode lustroso. Eita, até que esse turco fica bonito, assim todo almofadinha, dizia Dona Petrona. Essa menina tem sorte, o homem está alinhado.

Depois de alguns dias, Aurora pôde voltar ao rio. Do outro lado, o moço lá, trabalhando, as roupas maltrapilhas, as mãos grossas e sujas como sempre. Os olhos cor de mel logo perceberam Aurora. Moço, esperando um afastamento da irmã, ousado, chegou perto de Aurora. Vamos fugir, Aurora. Vamos pra cidade bonita, eu e você, amanhã cedo. Foge comigo, Aurora.

À noite, Aurora em casa, Dona Petrona e as irmãs incentivavam. Aurora, casa com o turco. Aurora sabia que lá no campo o moço se preparava para a viagem. Aurora sonhou com a cidade, com o moço. Aurora não dormiu direito. Você vai ter vestidos lindos, tão coloridos, Aurora. Vai ser a moça mais cheirosa das redondezas. Seu padrasto já está tratando do casamento com o turco, Aurora.

Aurora não teve coragem. No dia seguinte, Aurora se levantou como todas as manhãs. No rio, enquanto batia roupa nas pedras, seus olhos azuis procuravam entre os homens do campo a cor de mel dos olhos do moço bonito. Não estava mais lá.

O rapaz nunca mais voltou. De que adiantava se voltasse? Não tinha nem nome. Muitos anos depois, segunda metade do século XX, numa tarde quente de Campo Grande, o pequeno povoado já transformado em cidade, Aurora Estelharde Salomão contava o episódio à neta, uma gordinha metida, de cabelo espaventado. A menina prometeu: Voróra, um dia vou escrever a história do moço bonito, pra todo mundo saber a belezura daqueles olhos castanhos. Aurora riu.


Da série “Mulheres da minha vida”, que ainda não escrevi, também conhecida como “A paladina* do feminismo e sua luta contra o monstro do mito do amor romântico, round perdido nº 1”.

*Vocês sabem que essa flexão de gênero não é registrada?Ah, Saramago, obrigada por me lembrar de que "essas palavras não tinham feminino em hebraico..."

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Desanuviar


Capítulo I

A diversão

Menina, brincando na varanda de casa, dei pra seguir com os olhos algumas formigas jardineiras. Resolvi espalhá-las, soprei-as, bati com as mãos sobre o chão, fiz barulho, a fila de carregadeiras se desfez. Sobraram duas. Observei-as, rodopiando pelo ladrilho, ainda perdidas, e pus o dedinho sobre uma delas. Matei-a. Ainda fiquei algum tempo a olhar a outra que, aparentemente, retomava o caminho da fila. Ela se deteve diante da morta, começou a carregá-la. Interceptei seu caminho com o dedo. Ela se desviou. Fiz isso várias vezes, ela sempre se desvencilhava, sem largar a carga. Divertia-me. Ela se agitava. Pus lascas de madeira, de grama, de palha, qualquer coisa que encontrasse era boa para lhe dificultar o caminho. Numa agitação muito grande, totalmente sem rumo, ia e retornava, dava voltas no mesmo lugar. Alegrava-me ver-lhe o esforço para fugir e, ao mesmo tempo, suportar o peso. Transtornada e sem direção, finalmente ela largou o corpo.

Capítulo II

O desespero

Foi quando me assustei. Na cabeça da pequena, aquela formiga estava carregando a companheira para lhe dar um féretro, um enterro. Eu ainda não havia estudado a vida dos insetos na escola, para saber que o cadáver provavelmente viraria comida no formigueiro. Imaginava então que havia levado a carregadeira a uma aflição tão grande que a fizera desistir de sua nobre missão: render as últimas homenagens à irmã morta. Sentia que era uma coisa horrível, vieram os remorsos. Não pela morte de uma, mas pela loucura da outra. Tragédia das tragédias, cega de dor e medo, renega carne de sua carne? Peguei a defunta com cuidado – foi difícil, ainda que pequenos meus dedos, ela era minúscula – e a coloquei no caminho da sobrevivente. Ela se desviou da outra, continuava sua desvairada corrida, queria salvar-se, abandonava a amiga à própria morte. Desatino, absurdo total, inconcebível. Aquiles, tomado de loucura, largava o corpo de Pátroclo no campo de batalha. Desespero. Diversas vezes, repeti o gesto. Ela não reconhecia a morta, desvia-se-lhe. Impossível. De novo, o corpinho inerte era jogado diante da semelhante. Nada. Ela, louca, insensível, corria. Só corria, não importava sequer o caminho. Eu lhe implorei que recapturasse a morta. Leve-a, eu chorava, leve-a, seu lugar é o formigueiro, não a abandone, não abandone, pegue-a de novo, por favor. É sua irmã.

Capítulo III

O sofrimento

Não agüentei vê-la louca, desatinada, abandonando a companheira. Num gesto final, o cruel dedinho cometeu mais um crime. Matei-a também. Estava acabado. Pelo menos aquela loucura, aquele desatino, terminara. Respirei aliviada enquanto olhava os dois cadáveres no piso da varanda. Foi quando me sobreveio um sentimento ainda pior: quanto sofrimento eu infligira àquele ser. Não me sentia culpada, não pensava na minha ação gratuita e má, só conseguia imaginar a intensidade da dor que a formiga sentira. Tão grande e forte que de seu corpo teria saído uma nuvem densa, escura, que aumentava na proporção do pesar. Imaginei que todo ser que sofresse em todo o planeta produzia, subindo de sua cabeça para a atmosfera, essa massa de gases escuros, carregada de tristeza. O mundo logo se transformaria num imenso balão asfixiante. Morreríamos todos, sob um céu turvo, enredados em angústias, amarguras, infortúnios, próprios e alheios.

Capítulo IV

O fim

Naquela noite, envolvida pelos braços de minha mãe, aprendi o significado da palavra desanuviar.

terça-feira, 5 de junho de 2007

La petite musicienne jalouse et sa petite soeur


Papai nessa época era entregador de pão. Tinha uma Kombi velha, com a qual saía de madrugada. Passava na padaria, enchia o velho carro de pães e ia para os bairros, entregá-los a pequenos estabelecimentos. La petite musicienne jalouse já mostrava seus dotes artísticos. E sua pequena irmã bochechuda mostrava a cara-de-pau, fazendo-se de sanfoneira. Mamãe juntou todos os brinquedos para a foto, que singelo. Lembro-me até hoje dessas bonecas e, principalmente, dos ursinhos. Duraram muito. Material resistente.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Chico Buarque - João e Maria

Sem comentários.

Meninas lindas em Brasília





Acima, duas meninas lindas, numa churrascaria de Brasília. Ao lado, três lindas meninas diante do Congresso Nacional.